O extremismo político nas redes sociais segue um repertório de linguagem reconhecível, repetido por diferentes candidatos às eleições de 2026 no Rio de Janeiro ao longo dos últimos meses, e não um conjunto de excessos pontuais de campanha. É o que sugerem os primeiros achados do monitoramento de redes sociais conduzido pela parceria entre o Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (LAPPCOM-UFRJ) e o Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos (NIEJ-UFRJ), divulgados em 30 de setembro.

Ao longo dos primeiros meses de monitoramento, a equipe do LAPPCOM identificou, entre publicações de deputados estaduais e federais acompanhados em oito regiões do estado, um conjunto de postagens com potencial conteúdo sensível, encaminhado ao NIEJ para classificação segundo uma taxonomia própria de categorias. O que se apresenta a seguir é uma leitura qualitativa desse material, organizada pelos padrões discursivos que a análise conjunta dos casos permite identificar.

Instituições como alvo do extremismo político

Entre os casos analisados, o padrão mais frequente descreve as instituições da República como instrumentos de perseguição contra atores de direita. Em 28 de abril de 2026, o deputado federal Hélio Lopes (PL) publicou, com base em texto da Revista Oeste, a decisão da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal que tornou o deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO) réu por injúria contra o presidente Lula. A legenda converteu o episódio jurídico em prova de um padrão mais amplo: “essa é mais uma prova de que a perseguição contra a direita não tem limites. Estão rasgando a Constituição para proteger o ‘principal’”. A expressão “o principal” evita nomear o adversário e ao mesmo tempo presume familiaridade com o leitor, um recurso de linguagem que o filólogo alemão Victor Klemperer já observara em outro contexto histórico: diz mais sobre quem fala do que sobre quem é nomeado.

O mesmo deputado publicou, entre abril e maio, ao menos outras seis peças com estrutura equivalente, classificadas provisoriamente como ataques conspiratórios a instituições. A recorrência corresponde ao que a filósofa italiana Donatella Di Cesare descreve como lógica interna do conspiracionismo: a ausência de um culpado identificável no funcionamento ordinário das instituições democráticas é substituída pela hipótese de uma perseguição coordenada, e cada decisão institucional isolada passa a ser lida como nova evidência dessa hipótese, em vez de avaliada em seus próprios termos.

Casos estrangeiros importados como prova

Uma variante desse padrão consiste em importar casos ocorridos fora do Brasil como evidência indireta de um fenômeno supostamente global. Em 14 de abril, Lopes publicou peça sobre uma investigação do Departamento de Justiça dos Estados Unidos envolvendo grupos pró-vida durante o governo de Joe Biden, com a legenda “impressionante como agem da mesma forma em qualquer lugar do mundo! A esquerda sempre querendo acabar com os valores conservadores e cristãos”. Dois dias depois, publicou peça semelhante, citando a Gazeta do Povo, sobre a denúncia de um bispo acerca de perseguição religiosa na Nicarágua, ilustrada por uma fotomontagem que aproxima o presidente Lula do ditador Daniel Ortega, sob o título “a cristofobia está no DNA da esquerda”.

Em ambos os casos, episódios políticos localizados, ocorridos em países com estrutura institucional e correlação de forças distintas da brasileira, aparecem como prova de uma essência compartilhada. A formulação “está no DNA” desloca a acusação do terreno político, onde poderia ser contestada com argumentos e dados, para o terreno biológico, onde se apresenta como traço imutável e anterior a qualquer ação concreta do adversário. A citação sistemática de veículos com filiação editorial explícita ao campo político do próprio deputado, tratados na legenda como fontes de apuração neutra, é outro dado relevante para leituras futuras do corpus.

Vozes do próprio grupo contra suas pautas

Um terceiro padrão mobiliza a fala de um integrante de uma minoria para desqualificar reivindicações coletivas associadas a ela. Em 8 de abril, Lopes compartilhou trecho de entrevista em que uma mulher apresentada como ativista negra, questionada se aceitaria qualquer autodeclaração racial para acesso a cotas, respondeu que “iria rir” da hipótese; a entrevistadora usou essa resposta para validar, por analogia, a ridicularização da autoidentificação de gênero de pessoas trans. A analogia não resiste a exame, já que cotas raciais e reconhecimento de identidade de gênero respondem a históricos e marcos legais distintos; a equivalência é produto da edição da entrevista, não da natureza dos fenômenos comparados.

Cinco dias depois, o mesmo deputado publicou vídeo em que se descreve como homem negro que rejeita qualquer associação entre identidade racial e posição de esquerda, afirmando que esta impõe à população negra uma “senzala ideológica” da qual ele e outros “pretos de direita” teriam se libertado. A imagem esvazia o peso histórico do termo ao mesmo tempo em que se apropria de sua carga simbólica para produzir efeito retórico. Aplicada a eixos identitários diferentes, raça e gênero, a mesma arquitetura discursiva transfere a autoridade enunciativa para uma fonte aparentemente interna ao grupo visado.

Direitos humanos no calendário eleitoral

Estes três padrões — a perseguição institucional, a transposição internacional e a mobilização de porta-vozes contra as próprias pautas de seu grupo — não esgotam o material reunido pelo monitoramento LAPPCOM-NIEJ nas oito regiões do estado, nem substituem a análise quantitativa que os próximos volumes deste projeto vão apresentar. O que este primeiro recorte qualitativo mostra é que a gramática do extremismo político não depende de um deputado ou de uma legenda específica: ela está disponível para diferentes atores, conforme as necessidades de cada campanha, e afeta diretamente o repertório de direitos humanos em disputa nesta eleição. É essa estrutura, e não apenas suas manifestações pontuais, que o protocolo de classificação do NIEJ vai continuar a rastrear até outubro.

Acompanhe as próximas análises nas publicações do Instituto Memórias e Futuros e nos guias eleitorais do LAPPCOM.

Fontes citadas no texto

  • DI CESARE, Donatella. O complô no poder. Trad. Cezar Tridapalli. Belo Horizonte: Âyiné, 2022.
  • KLEMPERER, Victor. LTI: a linguagem do Terceiro Reich. Trad. Miriam Bettina Paulina Oelsner. Rio de Janeiro: Contraponto, 2009.
  • Planilha de monitoramento LAPPCOM-NIEJ, base de dados interna do projeto, 2026.
  • Peças de Hélio Lopes atribuídas à Revista Oeste e à Gazeta do Povo, conforme legendas originais.

Perguntas frequentes

O que é o monitoramento LAPPCOM-NIEJ?

É uma parceria entre o Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (LAPPCOM-UFRJ) e o Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos (NIEJ-UFRJ) que acompanha as redes sociais de candidatos às eleições fluminenses de 2026. A equipe do LAPPCOM identifica, entre publicações de deputados estaduais e federais acompanhados em oito regiões do estado, postagens com potencial conteúdo sensível, que são encaminhadas ao NIEJ para classificação segundo uma taxonomia própria de categorias.

Quais padrões de linguagem do extremismo político o monitoramento identificou?

Este primeiro recorte qualitativo identifica três padrões: a perseguição institucional, que descreve as instituições da República como instrumentos de perseguição contra atores de direita; a transposição internacional, que importa casos ocorridos fora do Brasil como prova de um fenômeno supostamente global; e a mobilização de porta-vozes de um grupo contra as próprias pautas desse grupo.

Como funciona a lógica do conspiracionismo, segundo Donatella Di Cesare?

Segundo a filósofa italiana Donatella Di Cesare, a ausência de um culpado identificável no funcionamento ordinário das instituições democráticas é substituída pela hipótese de uma perseguição coordenada. Cada decisão institucional isolada passa a ser lida como nova evidência dessa hipótese, em vez de avaliada em seus próprios termos.

Por que a expressão “está no DNA” chama atenção na análise?

Porque ela desloca a acusação do terreno político, onde poderia ser contestada com argumentos e dados, para o terreno biológico, onde se apresenta como traço imutável e anterior a qualquer ação concreta do adversário.

Os resultados apresentados já são definitivos?

Não. Os três padrões são uma leitura qualitativa e não esgotam o material reunido pelo monitoramento, nem substituem a análise quantitativa que os próximos volumes do projeto vão apresentar. O protocolo de classificação do NIEJ continua a rastrear esse material até outubro.