
Há dois mundos que circulam em paralelo no processo eleitoral, e os resultados que verificamos dialogam diretamente com essa distinção.
O mundo da política e o mundo virtual
O primeiro é o mundo da política, que estabelece suas decisões e produz sua reflexão a partir da política institucional, de escolhas mais racionais, vinculadas a uma perspectiva clássica e em diálogo com os partidos tradicionais, entre eles o Partido dos Trabalhadores e o presidente Lula.
O segundo é um mundo paralelo, que está em choque com o primeiro em algum sentido e que podemos chamar de mundo virtual.
Ele não é menos real nem menos racional do que o outro, mas se estabelece pela mobilização de sentimentos como medo, ressentimento e frustração. Organiza-se, sobretudo, em torno de uma perspectiva de conspiração, segundo a qual há donos do poder que conspiram e cujas relações precisam ser desveladas.
O mundo da política e o mundo virtual
O primeiro é o mundo da política, que estabelece suas decisões e produz sua reflexão a partir da política institucional, de escolhas mais racionais, vinculadas a uma perspectiva clássica e em diálogo com os partidos tradicionais, entre eles o Partido dos Trabalhadores e o presidente Lula.
O segundo é um mundo paralelo, que está em choque com o primeiro em algum sentido e que podemos chamar de mundo virtual.
Ele não é menos real nem menos racional do que o outro, mas se estabelece pela mobilização de sentimentos como medo, ressentimento e frustração. Organiza-se, sobretudo, em torno de uma perspectiva de conspiração, segundo a qual há donos do poder que conspiram e cujas relações precisam ser desveladas.
Conspiracionismo e política de sentimento
O conspiracionismo mobiliza porque dá a ideia de que se está fazendo algo. Esse grupo foi letrado por essa gramática conspiracionista e se constituiu a partir da ideia de que existe uma verdade a ser desvelada. Chamamos de “política de sentimento” aquilo que o mobiliza.
As pesquisas não conseguiram dialogar com esse segundo grupo, e esse foi o susto que tomamos. Elas operam com perguntas de “sim” ou “não”, como “em quem você vai votar?”, que não abrem o sentimento das pessoas. Quem vota em Bolsonaro vota a partir dessa gramática conspiracionista, e é dela que tratamos em nossas pesquisas.
Nada disso é diferente das perspectivas conspiracionistas dos anos 1930 na Alemanha ou dos anos 1920 na Itália.
O bolsonarismo como forma de fascismo
O bolsonarismo não é só antipetismo. É um desejo e uma perspectiva emocional.
O bolsonarismo é o fascismo, e o fascismo não funciona com uma ideologia coerente, e sim a partir do desejo: desejo de destruição, de fazer o outro desaparecer, de construir uma narrativa sobre a verdade absoluta que exige denunciar feministas, mulheres, gays e esquerdistas.
Os inimigos, nessa perspectiva, são internos, e a conspiração se baseia nesse desejo de destruição. É contra isso que lutamos no segundo turno, e não contra uma candidatura.

A cobertura da imprensa e “os irresponsáveis”
Esse quadro também explica o problema da cobertura corporativa. As mídias trataram o pleito como a disputa entre dois candidatos normais, um de esquerda e um de direita, e a percepção do mundo se organizou em torno dessas duas posições: os que estão aqui e os que estão ali. Isso é falso.
A realidade de hoje opõe o fascismo à democracia, e esse fascismo é muito parecido com a gramática fascista original. Do outro lado estão aqueles que Piketty chamou de “os irresponsáveis”, uma certa direita liberal que acredita poder controlar o fascismo miliciano do bolsonarismo.
Convém notar que não há fascismo sem milícias. Quem acha que se trata apenas de uma família miliciana, com interesses pequenos na administração de seus negócios, está errado, pois o fascismo sempre teve uma milícia para controlar, dar dinheiro e dar medo.
O que está em jogo no segundo turno
No segundo turno, portanto, não temos somente a civilização contra a barbárie.
Temos a esperança contra o ódio, a destruição contra a construção, a ordem estabelecida a partir do pós-guerra contra uma perspectiva negacionista que nos lembra, de maneira muito explícita, o nazismo e o fascismo.
A mídia, os jornais e todos os que podem falar ao público têm a responsabilidade de dizê-lo com clareza: o bolsonarismo é uma forma de fascismo. Ele está letrando setores cada vez maiores da sociedade a partir de uma perspectiva conspiracionista, e é muito perigoso o que acontece diante dos nossos olhos.
Pelo futuro e pela possibilidade de continuar existindo de maneira livre, é indispensável denunciar o bolsonarismo como uma forma de fascismo e de nazismo.
Não há diferença entre eles; o que há é ênfase. É achar que não se pode chamar de nazismo o que aconteceu antes da construção da primeira chaminé em Auschwitz.
Não foi Auschwitz que produziu o fascismo: foi o fascismo que produziu Auschwitz, e essa ordem importa.
É preciso acordar antes que seja tarde demais.
Sobre o autor
Michel Gherman é professor do Departamento de Sociologia, do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos (NIEJ) e do Programa de Pós-Graduação em História Social (PPGHIS) da UFRJ.
Este artigo expressa a opinião do autor.
Perguntas frequentes
O que é a gramática conspiracionista?
Segundo Michel Gherman, é a perspectiva segundo a qual há donos do poder que conspiram e cujas relações precisam ser desveladas. O conspiracionismo mobiliza porque dá a ideia de que se está fazendo algo, e um grupo de eleitores foi letrado por essa gramática a partir da ideia de que existe uma verdade a ser desvelada.
O que é “política de sentimento”?
É o nome que Gherman dá ao que mobiliza o eleitorado letrado pela gramática conspiracionista: uma política que se estabelece pela mobilização de sentimentos como medo, ressentimento e frustração. Para o autor, esse mundo não é menos real nem menos racional do que o da política institucional.
Por que as pesquisas eleitorais não captaram esse eleitorado?
Para Gherman, as pesquisas operam com perguntas de “sim” ou “não”, como “em quem você vai votar?”, que não abrem o sentimento das pessoas. Por isso não conseguiram dialogar com o grupo mobilizado pela política de sentimento.
Por que Michel Gherman define o bolsonarismo como fascismo?
Para o autor, o bolsonarismo não é só antipetismo, mas um desejo e uma perspectiva emocional. Como o fascismo, ele não funciona com uma ideologia coerente, e sim a partir do desejo de destruição, de fazer o outro desaparecer e de construir uma narrativa sobre a verdade absoluta que exige denunciar inimigos internos.
Quem são “os irresponsáveis”?
No texto, a expressão, atribuída a Piketty, designa uma certa direita liberal que acredita poder controlar o fascismo miliciano do bolsonarismo.
Qual é a crítica de Gherman à cobertura da imprensa?
Para o autor, a mídia tratou o pleito como uma disputa entre dois candidatos normais, um de esquerda e um de direita. Ele considera essa leitura falsa, porque a realidade de hoje opõe o fascismo à democracia.
