
A Revista Digital do NIEJ traz uma entrevista inédita e generosa com o professor Sander Gilman, historiador da cultura reconhecido internacionalmente por seus estudos sobre estereótipos sociais, raciais, de gênero e religiosos. Conduzida pelos pesquisadores Stephanie Assaf e Gabriel Mizrahi e traduzida por Anna Luísa Rocha e Olga Zunino, a conversa chega num momento em que o antissemitismo volta a crescer de forma instável e reincidente no Brasil e no mundo.
Quem é o historiador por trás da entrevista
Professor Emérito da Emory University, Gilman é autor de livros como Jewish Self-Hatred: Anti-Semitism and the Hidden Language of the Jews, publicado originalmente em 1986, The Jew’s Body (1991) e Multiculturalism and the Jews (2006). Ao longo de mais de meio século de pesquisa, dedicou-se a investigar as formas como sociedades imaginam, discriminam e classificam os “outros”, um instrumental que, segundo a revista, oferece chaves sofisticadas para compreender o presente sem reduzi-lo à geopolítica israelense-palestina. Esse recorte de longa duração é também o que aproxima Gilman do programa teórico do próprio NIEJ, que lê o extremismo contemporâneo à luz de processos históricos mais amplos de radicalização, e não como uma sucessão de episódios isolados.
Gilman não é desconhecido do núcleo. Em 2013, esteve no Rio de Janeiro a convite do NIEJ, do Programa de Pós-Graduação em História Social e do Programa de Pós-Graduação de Sociologia e Antropologia da UFRJ, onde proferiu a palestra “How did Racism and Anti-Semitism become Mental Illnesses?”, sobre a história da patologização de preconceitos raciais e religiosos como transtornos mentais. A visita atraiu estudantes, pesquisadores e lideranças judaicas, e ampliou o debate sobre antissemitismo e imaginário social no século XX entre acadêmicos cariocas, que desde então aguardavam uma nova oportunidade de ouvi-lo. Mais de uma década depois, o retorno de Gilman às páginas da revista funciona como um ponto de comparação: permite medir o que mudou, e o que não mudou, no modo como essas imagens circulam.
Por que essa conversa importa agora
Desde o ataque de 7 de outubro de 2023 e a escalada da guerra em Gaza, o mundo assiste a uma intensificação dos discursos de ódio e da polarização em torno da questão judaica e da questão palestina. Ao mesmo tempo, a atuação do governo de Israel e de seu exército em relação à população palestina em Gaza e na Cisjordânia tem gerado denúncias e críticas que mobilizam movimentos sociais e intelectuais, judeus e não judeus, comprometidos com os direitos humanos e com uma solução justa para o conflito.
Nesse cenário, a revista nota que lideranças judaicas, tanto em Israel quanto na diáspora, tendem por vezes a equiparar posições antissionistas a manifestações de antissemitismo disfarçado. Trata-se, segundo o texto de apresentação da entrevista, de uma estratégia que reduziria as críticas necessárias à política israelense ao antissemitismo, encobrindo os desafios éticos e políticos reais enfrentados pelo próprio Estado de Israel e pela comunidade judaica global. O problema apontado não é a existência de critérios para definir antissemitismo, mas o risco de que critérios mal desenhados sirvam mais para encerrar debates do que para qualificá-los.
O que a entrevista sobre antissemitismo discute
Segundo a revista, Gilman trata nesta entrevista da instabilidade histórica das imagens antissemitas, que mudam de conteúdo e de alvo conforme o contexto político sem perder sua função social. Discute também a apropriação interessada do filossemitismo por setores da extrema direita e da cultura evangélica, fenômeno em que a exaltação pública do povo judeu convive com a hostilidade a judeus reais que não se encaixam nesse papel.
A entrevista aborda ainda as ambiguidades do multiculturalismo contemporâneo e a resiliência surpreendente de discursos biomédicos e eugenistas no século XXI. Sem evitar as complexidades do cenário atual, o historiador reconhece as contradições internas de Israel, os desafios impostos à identidade judaica global e os riscos de naturalizar categorias e polarizações que, em última instância, servem para sustentar projetos políticos excludentes. É uma entrevista que resiste tanto a tratar o antissemitismo como peça de retórica política quanto a tratá-lo como fenômeno fixo, sempre igual a si mesmo ao longo da história.
Perguntas frequentes
Quem é Sander Gilman?
Sander Gilman é historiador da cultura, Professor Emérito da Emory University e reconhecido internacionalmente por seus estudos sobre estereótipos sociais, raciais, de gênero e religiosos. É autor de livros como “Jewish Self-Hatred” (1986), “The Jew’s Body” (1991) e “Multiculturalism and the Jews” (2006).
Onde ler a entrevista com Sander Gilman?
A entrevista foi publicada na Revista Digital do NIEJ, do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos da UFRJ. Foi conduzida pelos pesquisadores Stephanie Assaf e Gabriel Mizrahi e traduzida por Anna Luísa Rocha e Olga Zunino.
Qual é a relação de Sander Gilman com o NIEJ?
Em 2013, Gilman esteve no Rio de Janeiro a convite do NIEJ e de programas de pós-graduação da UFRJ, onde proferiu a palestra “How did Racism and Anti-Semitism become Mental Illnesses?”, sobre a história da patologização de preconceitos raciais e religiosos como transtornos mentais.
Quais temas a entrevista discute?
Segundo a revista, a entrevista trata da instabilidade histórica das imagens antissemitas, da apropriação do filossemitismo por setores da extrema direita e da cultura evangélica, das ambiguidades do multiculturalismo contemporâneo e da resiliência de discursos biomédicos e eugenistas no século XXI.
O que é a apropriação do filossemitismo pela extrema direita?
Segundo a apresentação da entrevista, é um fenômeno em que a exaltação pública do povo judeu convive com a hostilidade a judeus reais que não se encaixam nesse papel.
Por que a revista critica a equiparação entre antissionismo e antissemitismo?
Segundo o texto de apresentação, equiparar posições antissionistas a antissemitismo disfarçado reduziria críticas necessárias à política israelense ao antissemitismo. O problema apontado não é a existência de critérios para definir antissemitismo, mas o risco de que critérios mal desenhados sirvam mais para encerrar debates do que para qualificá-los.
