Em entrevista à revista VEJA, publicada em 15 de abril, o historiador Michel Gherman, coordenador do Instituto Memórias e Futuros, apresentou os principais argumentos de Diálogos em tempos difíceis: decifrando a gramática da nova extrema direita (Editora Fósforo), livro escrito com o teólogo Ronilso Pacheco. A conversa foi publicada um dia antes de um debate promovido pelo governo brasileiro, no Palácio do Itamaraty, sobre definições de antissemitismo.

O conceito de judeu imaginário no novo livro

Gherman situa o livro na experiência de perder amigos e vínculos de longa data para um vocabulário que passou a tratá-lo, a ele e a outros integrantes de sua comunidade, como ameaça a ser apagada. Chama esse fenômeno de “extremismo político que às vezes nos trata como aliados para poder nos apagar”, e descreve o livro como uma tentativa conjunta, sua e de Pacheco, de nomear a gramática por trás desse movimento, e não apenas de reagir a seus efeitos mais visíveis no cotidiano.

Um dos conceitos centrais da obra é o de “judeu imaginário”, categoria que Gherman descreve como uma construção que substitui o judeu real, contraditório e cheio de dúvidas, por uma figura identitária linear e sem atrito. Segundo ele, o mesmo mecanismo opera sobre o evangélico: não importa se alguém concorda teologicamente mas discorda politicamente, porque essa posição já basta para que seja tratado como ameaça a ser denunciada. O efeito, argumenta Gherman, é a substituição de comunidades étnico-religiosas por comunidades ideológico-políticas, nas quais o pertencimento passa a ser definido por alinhamento político, e não por identidade religiosa.

Gherman escreveu o livro ao lado de Pacheco, evangélico e diretor do Instituto de Estudos da Religião (ISER), a partir de conversas mediadas pela jornalista Ana Luiza Albuquerque, da Folha de S.Paulo. Os dois partem de lugares distintos, judaísmo e evangelicalismo, para descrever como suas respectivas comunidades foram instrumentalizadas pela extrema direita no Brasil e fora dele.

A pedagogia do ódio e o letramento político

Outro conceito apresentado na entrevista é o de “pedagogia do ódio”: a ideia de que a adesão ao extremismo político não nasce de surtos isolados, mas de um processo de letramento, no qual pessoas aprendem, ao longo do tempo e principalmente em espaços de convívio comunitário, quem odiar e como odiar. Gherman descreve esse processo como o oposto do letramento democrático que o Instituto busca promover, e afirma que reverter esse aprendizado, e não apenas responder a seus efeitos pontuais, é a tarefa mais urgente. O argumento se conecta diretamente ao eixo de formação pública deste Instituto, que tem no letramento político seu principal instrumento de disputa cultural com a extrema direita.

O livro também discute o chamado “sionismo cristão”, que Gherman descreve como um sequestro simultâneo de duas categorias, sionismo e cristianismo, a serviço do que chama de “agenda de ocupação, agenda de extermínio, agenda de domínio”, uma agenda que pouco tem a ver com qualquer uma das duas tradições que alega representar e que pressupõe um mundo habitado só por pessoas que pensam de forma idêntica.

Antissemitismo como gramática, não essência

A entrevista tratou diretamente da disputa em curso no Congresso sobre o tema. Gherman criticou o projeto de lei da deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP) sobre antissemitismo, descrevendo-o como baseado em definições “muito simplórias e persecutórias” e instrumentalizado pelo debate sobre Israel e Palestina, com potencial de silenciar o debate público em vez de qualificá-lo. Em contraste, apresentou o encontro do Itamaraty, marcado para o dia seguinte à publicação da entrevista, como uma tentativa inédita do governo brasileiro de ouvir perspectivas distintas antes de definir o que é e o que não é antissemitismo.

Para Gherman, entender o antissemitismo exige situá-lo na mesma chave analítica que orienta o restante do livro: como produtor de uma percepção conspiracionista da história, que fortalece grupos extremistas concentrados à direita do mapa político. A afirmação recusa duas simplificações comuns — tratar o antissemitismo como preconceito isolado de indivíduos ou como sinônimo automático de qualquer crítica a Israel — e propõe lê-lo como parte de uma gramática política mais ampla, a mesma que orienta o restante da obra.

O debate sobre antissemitismo segue aberto

A entrevista termina com um argumento que ultrapassa o tema do antissemitismo e organiza o livro como um todo: para Gherman, a extrema direita já construiu sua própria utopia, ainda que distópica, ancorada em um passado idealizado que só se sustenta pela destruição do presente. A alternativa que propõe não é abandonar o terreno do sonho e da religião à extrema direita, mas disputá-lo com propostas de inclusão e democracia.

O encontro no Itamaraty e a tramitação do projeto de lei sobre antissemitismo devem produzir, nos próximos meses, posições mais definidas do governo e do Congresso sobre um tema que a entrevista trata como estruturalmente ligado à gramática da extrema direita contemporânea, e não como um capítulo isolado e superado da história judaica. É esse desdobramento, e não apenas o lançamento do livro, que este Instituto continuará acompanhando, com atenção especial a como as definições discutidas no Itamaraty se traduzem, ou não, em política pública.

Fontes

Perguntas frequentes

Sobre o que é o livro “Diálogos em tempos difíceis”?

Escrito pelo historiador Michel Gherman e pelo teólogo Ronilso Pacheco, a partir de conversas mediadas pela jornalista Ana Luiza Albuquerque, o livro busca nomear a gramática da nova extrema direita. Os autores partem de lugares distintos, judaísmo e evangelicalismo, para descrever como suas respectivas comunidades foram instrumentalizadas pela extrema direita no Brasil e fora dele.

O que é o “judeu imaginário”, segundo Michel Gherman?

É uma construção que substitui o judeu real, contraditório e cheio de dúvidas, por uma figura identitária linear e sem atrito. Segundo Gherman, o mesmo mecanismo opera sobre o evangélico, e o efeito é a substituição de comunidades étnico-religiosas por comunidades ideológico-políticas, nas quais o pertencimento passa a ser definido por alinhamento político, e não por identidade religiosa.

O que é a “pedagogia do ódio”?

É a ideia de que a adesão ao extremismo político não nasce de surtos isolados, mas de um processo de letramento, no qual pessoas aprendem, ao longo do tempo e principalmente em espaços de convívio comunitário, quem odiar e como odiar. Para Gherman, reverter esse aprendizado é a tarefa mais urgente.

O que Gherman entende por “sionismo cristão”?

Gherman descreve o sionismo cristão como um sequestro simultâneo de duas categorias, sionismo e cristianismo, a serviço de uma agenda que pouco tem a ver com qualquer uma das duas tradições que alega representar e que pressupõe um mundo habitado só por pessoas que pensam de forma idêntica.

Por que o antissemitismo é tratado como gramática da extrema direita?

Para Gherman, o antissemitismo deve ser entendido como produtor de uma percepção conspiracionista da história, que fortalece grupos extremistas concentrados à direita do mapa político. A leitura recusa duas simplificações comuns: tratar o antissemitismo como preconceito isolado de indivíduos ou como sinônimo automático de qualquer crítica a Israel.

O que Gherman disse sobre o projeto de lei de Tabata Amaral sobre antissemitismo?

Na entrevista à VEJA, Gherman criticou o projeto de lei da deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP), descrevendo-o como baseado em definições “muito simplórias e persecutórias” e instrumentalizado pelo debate sobre Israel e Palestina, com potencial de silenciar o debate público em vez de qualificá-lo.